Por Ana Tomazelli:
Melhor é morar num canto de umas águas-furtadas do que com a mulher rixosa numa casa ampla (Provérbios 21.9)
Melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda (Provérbios 21:19)
Em 1800, a população mundial atingiu 1 bilhão de pessoas (IBGE, 2025).
Em 2011, eram 7 bilhões de pessoas.
Em 2022, chegamos a 8 bilhões de pessoas.
Em 2025, 8.2 bilhões de pessoas com distribuição e classificação formais em eixo binário com 50.5% sendo masculinos (4.171.301) e 49.5% sendo femininos (4.095.982.977) (Country Meters, s.d.).
Em 2019, a ONU previu que a população mundial poderia chegar a 9,7 bilhões em 2050.
O estudo “Word population prospects” (2024), da Organização das nações Unidas (ONU) também previu que a população mundial poderia atingir quase 11 bilhões de pessoas em 2100. O estudo concluiu que a população mundial está ficando mais velha devido a uma expectativa de vida maior e a taxas de fertilidade menores e está aumentando o número de países que estão vendo sua população diminuir.
Em números absolutos, não deveríamos encontrar dificuldades para encontrar um par.
Não fossem as idades, os territórios, as novas identidades de gênero, as novas-velhas orientações sexuais, os novos (também velhos, porém escondidos) jeitos de se relacionar, as classes sociais, se somos noturnos ou diurnos, do campo ou da praia, do carnaval ou do descanso, da academia ou do sofá – de uma religião ou de outra.
Não fosse a internet.
Se a forma de consumir bens e serviços passou por uma transformação radical nos últimos 20 anos, não é de se espantar que os relacionamentos também estejam sendo impactados diretamente: as novas noções de infidelidade conjugal, os novos signos de manifestação de importância, os já não tão novos rituais de formalização de um relacionamento. Quem, com mais de 40 anos, nunca passou (ou quis passar) pelo processo de publicar “Em relacionamento sério com…” no Facebook?
E as grandes DR’s (Discussões de Relacionamento, para os mais jovens) do porquê aquela foto de casal não foi para o feed do Instagram ou por que uma foto mais sensual (dela ou dele) foi postada, se está namorando?
O Tinder, o mais famoso aplicativo de relacionamentos do mundo, foi lançado em setembro de 2012[1] e, ainda que houvesse iniciativas anteriores analógicas, como o Correio Elegante nas quermesses ou aqueles amigos-cupidos, além de sites como o Par Perfeito (criado em janeiro de 2000[2]), nenhuma outra ferramenta parece ter transformado mais a maneira de encontrar pretendentes do que ele. Com 80 milhões de usuários ao redor do mundo[3], quase 3 milhões (2.9mm) pagam por algum tipo de assinatura e, desde sua criação, o Tinder foi baixado 450 milhões de vezes, com uma estimativa de mais de 70 bilhões de encontros ao redor do mundo, considerando os 189 países onde está presente.
Diferentemente da proporção da população mundial (ou da população brasileira), o Tinder concentra uma maioria masculina (75%) com uma faixa etária predominante de 25 a 34 anos. No entanto, um outro dado chama a atenção: 50,3% dos usuários totais declara estar procurando um relacionamento; mas, um estudo realizado em 2024 demonstrou que 65% declaram… não estarem solteiros (Globalwebindex, 2019). O mercado global de namoro online era avaliado em US$ 7.806 bilhões em 2022, segundo consultorias especializadas, que estimavam um crescimento para US$ 11.702 bilhões até 2030 (King`s Research, 2022). Isso ajuda a explicar o fenômeno posterior ao Tinder, com o lançamento de outros aplicativos com Bumble, OKCupid, Hinge, eHarmony, Grindr, Badoo, Inner Circle, dentre outros, que pretendiam (e pretendem) atender a nichos de escolhas e relacionamentos tão variados quanto a quantidade de pessoas ao redor do mundo.
Com tantas opções ao alcance de um clique e a evolução tecnológica dos smartfones nos últimos 10 anos, representando um volume de informação e um aumento de velocidade impactando o cotidiano das pessoas, os relacionamentos afetivos também foram remodelados profundamente: um extenso estudo da Universidade de Stanford (Rosenfeld, Thomas, Hausen, 2019), nos Estados Unidos, mostra que 60% dos casais contemporâneos estão se conhecendo pela internet, o que atingiu um pico durante a pandemia da Covid-19 (2020 – 2023), quando não era possível estar em locais de socialização presencial como bares, festas e viagens, por exemplo. Contudo, as ações na bolsa do MatchGroup (holding controladora do Tinder) que chegou a US$ 76,5, caiu 80% e são muitas as hipóteses discutidas – uma delas é a qualidade dos contatos, humanos em termos de abordagem inicial, conversas para “quebrar o gelo”, a transferência para um outro aplicativo mais “pessoal” como o Whatsapp, onde é compartilhado um número de telefone, passando, muitas vezes, pela vídeo-chamada até chegar em um encontro presencial, que se configuraria, de fato, como o início do contato físico entre o casal.
Neste processo, as classificações para garantir a “compatibilidade” entre duas pessoas se sofisticaram ao longo do tempo, mas a bifurcação de interesses, posturas e disposições para o compromisso – principalmente quando se trata de relações heterossexuais, heteronormativas e monogâmicas entre pessoas cisgênero – foi se tornando aparente e denunciada em redes sociais, com prints de descrições de perfis com textos mais agressivos em relação a tipos de corpos, pessoas com filhos, condições de relacionamentos anteriores etc, levando ao que podemos chamar de saturação empática social e derivando termos como “heteropessimismo” ou movimentos como “boy sober”, principalmente manifestados por mulheres declarando estarem cansadas de não encontrar homens com atributos de um adulto funcional, como ter uma casa, ser responsável por pagar as próprias contas, assumir um compromisso (p. ex.), levando a um esvaziamento da esperança, como descreve a autora do neologismo Asa Seresin (2019):
“sentimento de decepção, constrangimento ou desespero” com o estado das relações heterossexuais. Descrença de que é possível ter relacionamentos harmoniosos e satisfatórios com o sexo oposto.
Seresin também cunha o termo “heterofatalismo” para enfatizar como a atitude de manter a heterossexualidade em suas formas atuais é “terrível, sem esperança e sem visões para uma alternativa” (p.45) a partir das performatividades de gênero que se estabeleceram no Ocidente nos últimos 100 anos.
O movimento “boy sober” ou “sóbria de homens” nasceu com a comediante americana Hope Woodward (Schofield, 2024), no reveillón de 2022 quando, aos 27 anos e após sucessivas decepções amorosas, decidiu ficar 365 sem se relacionar intimamente com homens. Ao postar em seu perfil do TikTok, viveu o fenômeno conhecido como “viralização”, quando um conteúdo possui um alcance muito rápido, de grande volume e persistente no tempo, encontrando eco em milhares de mulheres ao redor do mundo, identificadas com um sentimento comum que, no Brasil, também ganhou força com a antiga expressão “dedo podre”: a noção de que uma mulher só escolhe o homem “errado”, alocando, nela, a responsabilidade pelas qualificações de uma outra pessoa, desencadeando processos psicológicos e terapêuticos para buscar um novo equilíbrio antes de partir para uma próxima experiência.
O que parece estar subjetivo e sutil no cansaço e na desesperança feminina se traduz em estatísticas sociais. O país tem 5,5 milhões de crianças sem o registro do pai na certidão, segundo o Portal da Transparência de Registro Civil (2025) e, pela primeira vez, há mais mulheres no comando da casa do que como esposa do homem que, historicamente, sempre foi o ator principal no sustento da família, segundo o Censo de 2022. Se elas eram as responsáveis por 38,7% dos domicílios em 2010, em 2022 esse número subiu para 49,1% maior do que a classificação como “cônjuges ou companheira”, que ficou em 25% no mesmo relatório.
Junte-se a isso, os números de violência doméstica em 2024 que, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024), com base nas chamadas do telefone 190, registraram um aumento de 9,8% nos chamados, um total de 258.941 casos a mais, comparados ao ano anterior. O número de divórcios também vem crescendo a uma média de 8,6% desde 2021 e os casamentos duram, em média, menos de 10 anos para quase metade dos casais (47,7%) (IBGE, 2022).
Como o recorte temporal que estou utilizando é o dos últimos 20 anos (2005 em diante), buscando os dados mais atualizados disponíveis e conferidos por instituições que possuam metodologias reconhecidamente confiáveis, tomadas como referências em suas áreas de atuação e/ou consideradas oficiais em seus territórios, também adiciono a informação de que os evangélicos cresceram 61% no Brasil e você também deve ter visto as notícias que diziam que o número de igrejas superou a soma de hospitais e escolar no país, aposto.
Em 1970, os evangélicos representavam 5% da população brasileira. Em 2010, eram 22% e, em 2022, eram cerca de 31% da população de mais de 200 milhões de pessoas se identificando como evangélicas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítica (IBGE, 2010) no Censo realizado tardiamente em virtude da pandemia de Covid-19.
O dado religioso é importante, pois, em resposta aos movimentos de mulheres por garantias de direitos, ou mesmo os citados acima que descrevem indisposições em relação aos homens de uma maneira geral, é possível observar, nos últimos 10 anos, a dinâmica de homens religiosos que passam a atuar na internet – tanto em perfis pessoais como profissionais – a partir de uma postura de resgate conservador pelos valores “da família” com base em atributos bíblicos e, portanto, se apoiando em argumentos que irão defender que são elas, as mulheres, as responsáveis pela destruição do lar, justamente por não corresponderem às noções de feminilidade, virtude e sabedoria, além de não estarem dedicadas exclusivamente ao cuidado do lar e dos filhos.
Tal narrativa ganha destaque a partir do movimento RedPill, que se fortalece em 2023, com homens autointitulados “coaches de masculinidades” que, inspirados pelo filme Matrix, fazem uma alusão à pílula vermelha, que irá mostrar a “realidade nua e crua” descrevendo os homens como um grupo injustiçado e silenciado pelas mulheres, que acabaram por dominar o mundo. Organizam-se, portanto, em grupos digitais que promovem uma cartilha de comportamentos e regras para a convivência (Riker, 2024), bem como a maneira como uma mulher “de respeito” deve se configurar para que seja digna de um marido provedor e protetor e, por óbvio, isso não inclui mulheres classificadas como “feministas”.
Portanto, se, de um lado, temos mulheres exaustas de se relacionar, enfrentando maiores índices de violência doméstica, que precisam se tornar chefes de família na maioria dos lares e, como se não bastasse, entrando com mais pedidos de divórcio; de outro temos homens se alinhando ao espectro conservador social-religioso, na tentativa de resgatar o que ficou conhecido como a “família tradicional brasileira”, tendo, em seu expoente, a mulher “bela, recatada e do lar” (Linhares, 2016); tudo isso mediado por um território digital que favorece o que Baumann (2004) chamou de “relações líquidas”:
Os laços humanos são amarrados com facilidade e desatados com ainda mais facilidade. Mantêm-se enquanto oferecem satisfação, mas são descartados assim que se tornam incômodos, exigem esforço ou deixam de proporcionar prazer imediato.
Não deveria surpreender que tal território, portanto em disputa, desse corpo a uma nova transação.
Uma mulher é uma princesa
Mariana tem 38 anos e nunca se casou.
Gisele tem 42 anos e é divorciada de um único casamento que durou nove anos.
Renata tem 53 anos, já se casou três vezes e segue insistente para a próxima.
Têm idades diferentes, moram em regiões diferentes, possuem corpos diferentes, com profissões, gostos, estilos, poder aquisitivo, histórias familiares, tudo – TUDO – diferente. A única coisa que as une, além de serem mulheres cisgênero: o fato de serem heterossexuais e desejarem um relacionamento monogâmico, o que, invariavelmente, irá colocá-las em uma condição heteronormativa.
São personagens fictícias para este capítulo, mas, todas, encontram análogo arquetípico em mulheres da vida real, não somente em meus círculos sociais e afetivos como, principalmente, nas milhares de pessoas que atendo após fundar uma instituição filantrópica em saúde mental.
No entanto, para que esse texto não fique ininteligível ou, ainda, para evitar deformidades de entendimento, é importante repassar os conceitos, ou corro o risco de perder você mais adiante.
Uma “mulher cisgênero” ou simplesmente “mulher cis” refere-se a uma pessoa designada como mulher ao nascer (registrada como “feminino” na certidão de nascimento, por possuir órgão genital convencionado para esta classificação) e que se identifica e se percebe como mulher, em termos de papeis e identidades sociais ao longo da vida. Em outras palavras, sua identidade de gênero está alinhada ao “sexo” atribuído no nascimento.
O uso acadêmico e teórico do termo “cisgênero” surgiu nas décadas de 1990 e 2000, dentro dos estudos de gênero e sexualidade, vinculado aos debates da psicologia, sociologia e ativismo LGBTQIAP+ , com a socióloga Dana Leland Defosse, que teria usado o termo para diferenciar pessoas que se identificavam com o gênero atribuído no nascimento daquelas que não se identificavam co o mesmo. Já nos anos 2000, Julia Serano, bióloga e ativista trans, ajudou a popularizar o termo em sua obra Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity (2007), argumentando que a cisgeneridade deveria ser reconhecida como uma identidade e não como um “padrão neutro”. Mas, foi só por volta de 2010 que o termo “cisgênero” começou a aparecer em debates públicos, políticas de inclusão e documentos oficiais. Ele passou a ser amplamente utilizado por organizações como a Associação Americana de Psicologia (APA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Uma mulher cisgênero pode, do ponto de vista de orientação sexual, se apresentar ou se classificar de muitas formas. Aqui, me dedico a explicar a heterossexualidade que, compulsoriamente, leva a uma dinâmica heteronormativa, com a observação de que se tratam de conceitos diferentes entre si, não sendo a heteronormatividade exclusiva da relações localizadas no espectro da heterossexualidade.
A heterossexualidade é, tradicionalmente, definida como uma orientação sexual caracterizada pela atração emocional, romântica e/ou sexual entre indivíduos que manifestem identidades de gênero opostas (homens atraídos por mulheres e vice-versa). Essa definição é amplamente utilizada em áreas como psicologia, sociologia, antropologia e estudos de gênero e, embora a heterossexualidade seja amplamente percebida como uma norma social e, religiosamente, defendida como “natural”, sua conceituação como uma categoria específica de sexualidade é relativamente recente e data do século XIX em que o termo “heterossexualidade” começou a ser usado na medicina e na psicologia para descrever uma atração entre “sexos” opostos.
Richard von Krafft-Ebing (1886), em seu livro Psychopathia Sexualis, categorizou a heterossexualidade e a homossexualidade como possíveis variações da sexualidade humana, mas descrevendo a heterossexualidade como a norma esperada para a reprodução em termos biológicos. Já Michel Foucault (1976), em História da Sexualidade, argumenta que as categorias de heterossexualidade e homossexualidade surgiram como construções sociais a partir do século XIX, moldadas por discursos médicos e jurídicos que buscavam regular os comportamentos sexuais. É Adrienne Rich (1980), no ensaio Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence, que introduz o conceito de “heterossexualidade compulsória”, descrevendo como a sociedade impõe a heterossexualidade como um regime normativo, limitando as possibilidades de outras orientações sexuais. E é aqui que, posteriormente, uma série de estudos se intensificam para discutir religiosidade e sexualidade.
O importante a saber é que foi a partir dos estudos de gênero e da teoria queer[4], que o conceito de heterossexualidade passou a ser analisado de forma crítica, especialmente em relação à heteronormatividade, que se refere à suposição de que a heterossexualidade é a única orientação sexual legítima e natural. São os autores como Judith Butler (Gender Trouble, 1990) e Michael Warner (Fear of a Queer Planet, 1993), por exemplo, que vão questionar como a heterossexualidade é mantida por normas culturais e estruturais que invisibilizam e marginalizam outras formas de desejo e identidade.
A heteronormatividade, portanto, vai atribuir papeis tradicionais de gênero às relações afetivas – e foi por isso que reforcei o fato de que não se aplica, exclusivamente, às condições heterossexuais, pois muitos casais homossexuais, por exemplo, podem performar as responsabilidades masculinas e femininas na dinâmica do casal, em termos de divisão de tarefas domésticas, trabalho remunerado, cuidado com os filhos e familiares etc.
Eu não poderia avançar sem apresentar brevemente o conceito de monogamia, posto que este está no centro do que irei abordar em termos de mercado e capital reputacional feminino – capital este investido não em conquistar um homem de valor, mas em ser escolhida por ele, a partir do conceito da Prateleira do Amor, da professora Valeska Zanello (2022) que trago mais adiante, como uma chave de leitura para a compreensão daquilo que estou propondo como discussão neste capítulo.
A monogamia, portanto, é um sistema de organização social e relacional caracterizado pela exclusividade afetivo-sexual entre dois indivíduos, de qualquer identidade de gênero e orientação sexual, desde que exclusivo entre ambos em alguma instância. Esse conceito pode ser analisado sob diferentes perspectivas, incluindo biologia, antropologia, sociologia e estudos culturais, o que não se trata do objetivo neste momento. No contexto contemporâneo, a monogamia pode se manifestar de diferentes formas, sendo afetivo, quando um indivíduo mantém um relacionamento formal e estável com um único parceiro, sem necessariamente haver envolvimento sexual. A monogamia sexual em si, com exclusividade neste campo entre dois parceiros, independentemente da estabilidade do relacionamento ou do modelo adotado e, portanto, a monogamia mais comumente conhecida quando o relacionamento envolve a questão afetiva e sexual entre duas pessoas por vez, ainda que se repita com outras pessoas em diferentes momentos do tempo (não concomitantemente).
Diferentemente do que nós defendemos como “natureza” na sociedade humana, a monogamia é rara no reino animal, mas aparece em algumas espécies de aves, primatas e mamíferos. Em humanos, pesquisadores debatem se a monogamia é uma adaptação evolutiva ou uma construção cultural, não sem muitos argumentos envolvidos – inclusive o religioso. Mas, segundo estudos na antropologia evolucionista, Christopher Ryan e Cacilda Jethá (Sex at Dawn, 2010) argumentam que os primeiros humanos eram sexualmente promíscuos e que a monogamia surgiu como um sistema imposto por sociedades agrárias, quando deixamos de ser caçadores e coletores. Já David P. Barash e Judith Eve Lipton (The Myth of Monogamy, 2001) sugerem que a monogamia humana é um comportamento aprendido, não inato. O fato é que a monogamia, como norma social, começou a se estruturar com a sedentarização e o surgimento da propriedade privada, pois a exclusividade sexual garantia a herança e a transmissão de bens, além de promover controle sobre o corpo feminino em termos reprodutivos. Na Grécia e Roma antigas, apesar do casamento monogâmico ser instituído, era comum que homens tivessem concubinas ou relações extraconjugais e, no cristianismo primitivo, a monogamia foi fortalecida como modelo ideal de relacionamento, diferindo de práticas poligâmicas comuns em outras culturas antigas, tendo a Igreja Católica passado a fazer parte do casamento por volta do século IX (Vainfas, 1992). Foi, portanto, durante a Idade Média, que a Igreja Católica consolidou a monogamia como uma norma moral e legal na Europa, em função de questões econômicas e políticas e, mais adiante, nos séculos XVIII e XIX, com o avanço do liberalismo e do romantismo, é que a monogamia passou a ser cada vez mais associada ao amor e à fidelidade emocional, principalmente após as atribuições racionais serem identificadas como masculinas e, as emocionais, como femininas do Iluminismo em diante.
No século XX, a monogamia foi reforçada pelo modelo familiar nuclear, chegando ao auge a partir do pós-guerra, com revistas que ensinavam as mulheres como proceder em tarefas domésticas, além de difundir histórias românticas da literatura por rádio, TV e cinema, com destaque para os clássicos de Hollywood em que as belas moças são salvas ou vivem por um amor, ganhando força com as princesas da Disney na década de 80 e a indústria publicitária até os anos 2000; todos os estímulos reforçando a ideia de que está, no relacionamento heterossexual – heteronormativo – monogâmico a única chance de ser feliz para sempre.
Ou, quem sabe, a única possibilidade de salvação.
Foi importante marcar essas denominações para este texto, porque, tudo o que eu descrevi até agora, tanto do ponto de vista estatístico, quanto do ponto de vista subjetivo, se referiu a estes recortes específicos, bem como o que virá adiante, excluindo-se, portanto, todas as identidades de gênero, orientações sexuais e modelos dissidentes, por uma simples razão óbvia: nenhum deles cabe na narrativa bíblica de família. E isso é assunto para um outro momento.
Tradwives: a mulher como mercado
É, portanto, nessa lógica de ser salva, traduzida na condição de ser escolhida, que as mulheres irão operar segundo o dispositivo chamado de Prateleira do Amor, categoria criada pela professora Valeska Zanello. A autora introduz a metáfora da “prateleira do amor” para analisar as dinâmicas afetivas e as hierarquias de gênero presentes nas relações amorosas contemporâneas. Este conceito busca evidenciar como, culturalmente, as mulheres são condicionadas a se posicionarem em uma espécie de “prateleira”, onde são avaliadas e escolhidas com base em padrões estéticos e comportamentais estabelecidos socialmente. Para este nosso trabalho, irei aproximar tais padrões do discurso bíblico, a partir da identificação de tais descrições nos produtos digitais oferecidos por mulheres e para mulheres, justamente, com a intenção de posicioná-las em tal prateleira; no entanto, em posição privilegiada.
Zanello argumenta que, na sociedade brasileira, há um ideal estético hegemônico — geralmente caracterizado por atributos como pele branca, cabelos loiros, corpo magro e juventude (qualquer semelhança com as princesas da Disney ou as Paquitas da Xuxa não é mera coincidência) — que determina quais mulheres ocupam as posições de destaque nessa “prateleira”. Mulheres que se afastam desse padrão, como as negras, indígenas, gordas ou mais velhas, frequentemente são colocadas em posições menos privilegiadas, enfrentando maiores dificuldades para serem vistas como “dignas” de amor e compromisso em uma cultura que valoriza tais estereótipos.
Além disso, a autora destaca que essa estrutura reforça a objetificação das mulheres, onde elas são percebidas como “produtos” a serem escolhidos, enquanto os homens assumem o papel de avaliadores e consumidores nessa dinâmica. Essa lógica contribui para a manutenção de relações desiguais, nas quais as mulheres muitas vezes internalizam a necessidade de corresponder a esses padrões para serem valorizadas afetivamente, levando a uma terceirização da autoestima e a uma rivalidade entre elas.
Uma vez entendido este conceito, em correlação com o percurso teórico realizado até aqui, é possível, a partir de agora, descrever mais um fenômeno digital em andamento: as “TradWives”.
Termo que conjuga as palavras “traditional” e “wives” (tradicional e esposas, em tradução livre), o movimento ganha força a partir de 2020, com Hannah Neeleman ou a “Ballerina Farm” que, em fevereiro de 2025, somava mais 10,1 milhões de seguidores no Instagram. Hannah, nascida em 25 de junho de 1990 em Springville, Utah, é a mente por trás da popular Ballerina Farm, uma marca que viru empresa, baseada na noção da esposa tradicional. Criada em uma família mórmon com nove filhos, seus pais eram proprietários de uma floricultura e, desde jovem, Hannah demonstrou talento para a dança, participando de programas de balé durante o verão na Juilliard School aos 14 anos. Aos 16, recebeu uma bolsa de estudos para o programa de balé da Brigham Young University, concluindo posteriormente seus estudos na Juilliard em Nova York.
Durante o verão anterior ao seu último ano na Juilliard, Hannah conheceu Daniel Neeleman em Utah, e o casal ficou noivo após três semanas apenas. Daniel, também membro de uma família mórmon de nove filhos, é filho de David Neeleman, fundador de companhias aéreas como a JetBlue. Após o casamento, o casal residiu no Brasil devido ao trabalho de Daniel como diretor de uma empresa de segurança doméstica e foi nesse período que ambos desenvolveram uma paixão pela vida no campo, inspirados pelas estadias em hotéis-fazenda locais.
Em 2018, retornaram aos Estados Unidos e adquiriram uma fazenda em Kamas, Utah, batizada de Ballerina Farm — uma homenagem ao passado de Hannah como bailarina profissional. Na fazenda, eles criam gado, porcos, galinhas e outros animais, além de oferecerem produtos como carnes embaladas, produtos de panificação, velas de cera de abelha e utensílios de cozinha por meio de uma loja online. A operação conta com uma equipe dedicada para auxiliar nas atividades diárias e na gestão do negócio, enquanto Hannah compartilha sua rotina agrícola e familiar nas redes sociais, acumulando milhões de seguidores no Instagram e TikTok. Seu conteúdo destaca a vida no campo, práticas de culinária “do zero” e a criação de seus oito filhos. Embora seja frequentemente associada ao movimento “tradwife”, que valoriza papéis femininos tradicionais, Hannah enfatiza que suas escolhas refletem sua paixão pela maternidade e autossuficiência, não necessariamente uma adesão estrita a normas tradicionais de gênero, o que tem sido exaustivamente discutido pela mídia e por pesquisadores de gênero ao redor do mundo. Além de suas atividades na fazenda e nas redes sociais, Hannah participou de concursos de beleza, sendo coroada Mrs. Utah em 2021 e Mrs. American em 2023, representando Dakota do Sul. Notavelmente, competiu menos de duas semanas após o nascimento de seu oitavo filho.
Ou seja: Hannah não só é a esposa preciosa que reúne predicados bíblicos de atuação, como se dedicar à casa e aos filhos como, também, é linda como uma princesa da Disney.
Parece uma ironia despropositada, mas não é: a partir desta noção estética e semiótica, observa-se o crescimento de um mercado que vende cursos, palestras e mentorias para ensinar mulheres, literalmente, como se vestir, como falar, como se comportar, o que estudar, como trabalhar e tudo o mais o que envolver não somente o comportamento individual, mas maneiras de se relacionar, apoiadas no entendimento de que uma mulher “virtuosa” e “sábia”, termos comumente presentes nos textos persuasivos de venda, se posiciona de maneira a servir o marido e agir segundo as designações religiosas de retidão e santidade, ainda que haja alguma menção às questões profanas ou sexuais, por exemplo.
Acompanhei oito perfis de Instagram com mais de 100 mil seguidores cada (entre 102.000 e 812.000) por 90 dias (de 25/10/2024 a 24/02/2025) que, somados, sem considerar possíveis audiências em duplicidade, totalizam 3.308.000 pessoas consumindo uma média de 24 posts diários que procuram descrever o padrão ideal da mulher digna de ser escolhida por um homem de valor para casar-se, na prateleira do amor.
Das oito, cinco empenham suas vidas pessoais em histórias e/ou fotos com maridos em casamentos que chamam de “sólidos”e “tementes a Deus”, atribuindo a conquista desta “bênção” às mudanças que empreenderam em suas próprias histórias, direta ou indiretamente.
Analisei as categorias:
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- Número de seguidores
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- Descrição da Bio (apresentação)
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- Call to Action (o “chamado para a ação”, texto que convida à compra)
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- O Nome do produto
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- O mote envolvido (argumento)
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- A transformação prometida (ou salvação, em análogo religioso)
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- O valor a ser pago
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- E o número e alunas impactadas (um número mais raro de existir e, sempre, autodeclarado, impossibilitando auditoria ou submissão a outras ferramentas externas)
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- Hashtags (“âncoras” técnicas de marcação do algoritmo para facilitar a busca e o agrupamento por temática afinizada)
De forma que as tabelas ficaram assim: (tabelas disponibilizadas ao final do artigo)
Os principais termos registrados em “hashtags” versus o volume de aparições identificados na ferramenta, demonstrando o universo semântico para além dos perfis pesquisados:
| Número de menções em todo o instagram atualizado em 28/02/2025 | |
| #mulhervirtuosa | 2.900.000 |
| #feminilidade | 539.000 |
| #mulherdevalor | 474.000 |
| #mulhervirtuosadedeus | 96.800 |
| #feminilidadecrista | 27.700 |
Todos os produtos partem, portanto, de um mesmo ponto: a insatisfação desta mulher com a volatilidade, a frivolidade e a superficialidade dos relacionamentos e seus aplicativos, categorias que poderíamos identificar com inspiração nos conceitos de Baumann e sustentam um mote (ou argumento) de que há algo a descobrir, desvendar ou decidir sobre si mesma, baseada em determinações religiosas e que é, justamente isso o que não se sabe, o que a impede de viver um relacionamento feliz – sempre a partir de uma transformação pessoal que passa pela condição estética, comportamental e intelectual, confrontando presente secular e passado religioso.
O mote mais representativo encontrado ao longo da pesquisa possui o seguinte texto: “veja como ativar um Dispositivo de Dominação Mental que vai te ajudar a desvendar esses segredos” (@franpecois) e qualquer semelhança com o conceito de Revelação também não é mera coincidência.
Os demais argumentos constroem um percurso em cinco etapas, que vão (1) do mote passivo,
“Se você está aqui, é porque entende a importância de ser uma mulher CURADA, resgatando a sua identidade e sendo quem Deus te criou para ser”, (@anadrumont_)
(2) passando pela comparação do presente com o passado,
“PREFIRA SER A MULHER DE PROVÉRBIOS 31 DO QUE A MULHER DO SÉCULO XXI “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor excede o de muitos rubis.” Provérbios 31:10”(@franpecois)
(3) chegando ao controle indireto pelo não-saber;
“Você sabia que a maioria das mulheres que vivem um relacionamento abusivo ou com um narcisista, nem sabe disso?” (carlaferreira_pef)
(4) tendo as dores encerradas na religião e
“Todas as suas dores podem ser transformadas a partir do relacionamento com Jesus” (@conectadaspeloproposito)
(5) até conquistar a posição privilegiada na prateleira do amor
“Descubra como soltar o controle e permita que o homem certo te surpreenda” (@danielaclmartins)
De Guia para Solteiras a Escola para Esposas, todos os produtos respeitam a jornada e é possível agrupá-los em duas categorias comportamentais, ambas complementares, trabalhando em conjunto para o mesmo objetivo: ser escolhida por um homem de valor para um casamento abençoado por Deus, além de ser alçada ao status de esposa-troféu por performar os atributos de feminilidade de uma esposa tradicional (TradWife):
-
- Comportamento individual
- A resistir (aos padrões feministas do mundo atual)
- A transformar (a roupa, o cabelo, a abordagem, o tom de voz)
-
- A sustentar (novas amizades, novos ambientes)
- Comportamento individual
-
- Comportamento em alteridade
- A buscar (solteira ou separada/divorciada em busca de um casamento)
- A manter (o casamento sendo uma esposa virtuosa)
-
- A interromper (um relacionamento abusivo, mas, ainda assim, não sem a orientação de caminhos e tentativas de recuperação do casamento e somente um produto foi encontrado nesta direção).
- Comportamento em alteridade
Do ponto de vista da transformação prometida, os 11 produtos dos oito perfis guardam semelhança na medida em que objetivam conquistas subjetivas (principalmente condicionando a felicidade a um marido), mas nenhuma das promessas sintetiza tão bem o cerne da questão quanto a sentença “De ‘mulheres brutas’ a mulheres ‘belas e femininas’”. O entendimento popular que posiciona todo comportamento feminino autocentrado de maneira a antagonizar o comportamento feminino dedicado ao lar e ao marido, está no centro da discussão que culpabiliza a própria mulher pelo enfraquecimento da instituição do núcleo familiar, a despeito das estatísticas de violência e circunstâncias sociais a que esta é submetida – e pelas quais não poderia ser responsabilizada unilateralmente.
Diante do fato de que uma mulher sustenta a casa, dedica o dobro de horas por semana ao trabalho doméstico em relação ao homem e, ainda, pode sofrer uma violência sexual a cada 8 minutos no Brasil, onde estariam os homens dispostos a protegê-la, provê-la e amá-la, como Cristo amou e se dedicou à Igreja?
O homem como recompensa
Tal mercado, no entanto, não se sustentaria se a prova social não existisse ou, ainda, se as possibilidades de encontrar ou ser encontrada estivessem circunscritas aos aplicativos genéricos de relacionamentos (como o citado Tinder) e aos amigos-cupido.
Imagine, então, se ambas as circunstâncias fossem ofertadas em conjunto?
Não pretendo me estender em como o masculino religioso desenvolve um mercado lucrativo baseando a prosperidade financeira no pilar da família, com forte ênfase na qualidade da esposa, defendendo posturas de fidelidade e retidão ética; contudo, não posso deixar de dar visibilidade dos atributos deste masculino aspirado, personificados em um personagem expoente do território digital. Registro aqui, portanto, a semente para um posterior capítulo de interesse correlato.
Para o que nos interessa neste momento, basta apresentar Wendell Carvalho, empresário, com 9.300.000 (nove milhões e trezentos mil seguidores) no Instagram, considerado o detentor da marca de maior faturamento da plataforma de vendas de produtos digitais Hotmart (250mm/ano autodeclarados em evento agosto 2024), religioso cristão fervoroso, possui postagens dentro de igrejas e ancora seu discurso narrativo em seu casamento com Karina Peloi, atribuindo, a ela, todo o seu sucesso (sua resiliência, insistência, sabedoria, fortaleza, submissão às decisões dele, dentro outros atributos possíveis de serem identificados em seu conteúdo diário). Ambos possuem suas áreas de atuações independentes (ele, em negócios; ela, em nutrição, mas com prioridade para o lar) e promovem eventos em conjunto desde 2016 com foco em gestão de empresas digitais (dentre outros) até perceberem que pessoas solteiras iniciavam relacionamentos em tais encontros; muitas chegando ao casamento.
Não deu outra: passaram a promover posts no Instagram em que homens e mulheres comentam com breves apresentações, procurando um(a) pretendente, chegando a criar um evento exclusivo para pessoas solteiras em 2023, que cresce a passos largos a cada ano.
A receita não poderia ser mais simples: homens considerados “de valor” que conjugam reputação, devoção e capital, dispostos a liderar negócios prósperos e construir vidas dedicadas à família, encontram mulheres com disposição para também desenvolverem suas carreiras; porém, priorizando as iniciativas de um marido e se responsabilizando pelo lar e pela família, no entendimento de que essa parceria – o casamento – é o negócio (a empresa) em si.
A organização da família tem sido um dos temas centrais da economia e da sociologia, especialmente no que diz respeito à divisão do trabalho entre os cônjuges. O economista Gary Becker, em sua influente obra A Treatise on the Family (1981), propôs que a família funciona como uma unidade econômica que toma decisões racionais para maximizar sua produtividade e bem-estar. Essa visão se alinha não somente ao recente fenômeno TradWife, mas, também, aos arranjos facilitados/mediados pela internet e seus promotores.
Portanto, para ser a escolhida por um homem que, além de querer formar uma família, ainda irá se dedicar a prosperar a partir do entendimento da parceria com sua esposa, a mulher busca os meios de se capacitar, justamente na noção análoga a uma profissional que está apta a participar de processos seletivos em uma carreira que possui o cargo expecífico, sendo a família, ainda, uma unidade de produção e consumo. Afinal, para Becker, a família deve ser entendida como uma unidade econômica que produz bens e serviços (cuidado dos filhos, organização doméstica) e consome recursos (alimentação, moradia, educação). Ao aplicar a teoria da escolha racional à estrutura familiar, ele argumenta que os indivíduos escolhem seus parceiros e distribuem suas responsabilidades dentro do lar com base em uma lógica de maximização de utilidade, o que demanda competências específicas para cada uma das partes.
Isso significa que a divisão de papéis dentro da família não é meramente cultural, mas uma forma de otimização de recursos, convenientemente suportada pelas atribuições de papeis de gênero oriundas da Bíblia.
O mercado casamento e a escolha da parceira
Dessa forma, do ponto de vista econômico, Becker propõe que a divisão do trabalho entre marido e esposa segue o princípio da vantagem comparativa, o que significa que o homemse especializa no trabalho remunerado fora de casa, onde teria maior produtividade e a mulher se especializa no trabalho doméstico e no cuidado dos filhos, otimizando a eficiência da família como um todo, não somente na entrada do recurso financeiro, mas na administração e no manejo dos custos, contribuindo para o que seria, em uma empresa, a noção de lucro (aquilo que “sobra” após descontados os custos, sobre tudo aquilo que se tem de receita).
Este modelo pressupõe que a mulher desempenha funções essenciais para o bem-estar do lar, garantindo que o marido possa investir em sua carreira e maximizar sua renda, o que inclui cuidar e servir este marido em termos físicos, emocionais e sexuais, frentes de competência ensinadas em todos os 11 produtos pesquisados nos oito perfis acima. A lógica da especialização também é defendida por muitas influenciadoras TradWife, que promovem a ideia de que a mulher deve assumir o papel de esposa e mãe para manter a harmonia do lar, a despeito de suas vontades particulares, aspirações profissionais ou dificuldades em saúde mental.
Em A Treatise on the Family, Becker propõe que o casamento pode ser entendido como um mercado, onde os indivíduos buscam maximizar seus ganhos a partir da escolha de um parceiro que lhes ofereça o melhor retorno e, aqui, está uma chave de leitura muito importante: afinal, segundo essa teoria, mulheres tendem a escolher parceiros com status socioeconômico mais alto (hipergamia), garantindo segurança financeira e homens tendem a escolher parceiras mais jovens e atraentes, associadas a uma maior capacidade reprodutiva. Tal teoria ajuda a explicar a lógica dos cursos e conteúdos oferecidos presentes nesta pesquisa, que ensinam mulheres a se tornarem mais “valiosas” no mercado do casamento ao adotarem posturas mais submissas, virtuosas e femininas, inclusive, oferecendo, como um bem, a discrição feminina que leva ao orgulho masculino.
Becker também analisa a decisão de ter filhos sob a ótica econômica. Para ele, a quantidade de filhos é resultado de uma análise custo-benefício, na qual famílias com maior renda tendem a ter menos filhos, mas investem mais em sua educação e bem-estar, além de considerar o tempo investido pela mulher no cuidado infantil como uma forma de capital humano, pois impacta diretamente o futuro econômico dos filhos, ideia reforçada pelo mercado pesquisado no que tange a valorizar a maternidade como um dos papéis mais nobres e importantes da mulher.
Em linha com o que venho discutindo neste capítulo e para endereçar o tema para sua abordagem final, outro aspecto analisado por Becker é o aumento das taxas de divórcio, explicado pela entrada da mulher no mercado de trabalho e pelo aumento de sua independência financeira, dois fatores atacados frontalmente não somente pelos homens conservadores, mas, também, abordados por tais cursos oferecidos eplas mulheres cristãs no sentido de desfazer a priorização da liberdade financeira, em detrimento da subserviência à família.
Esses dados são frequentemente utilizados pelos defensores do modelo tradicional e para argumentar que a modernização das relações conjugais levou a um aumento na instabilidade familiar.
Apesar de sua influência, o modelo de Becker tem sido alvo de críticas, com as quais compactuo, uma vez que ignora as desigualdades históricas de gênero, assumindo que a divisão do trabalho é puramente racional e subestima o trabalho doméstico, que é economicamente invisibilizado, sendo classificado pela antropóloga Silvia Federici (2017) como “trabalho não remunerado”. O pensamento de Becker também não considera as mudanças sociais e tecnológicas, que teriam reduzido a necessidade de uma dona de casa em tempo integral, tampouco as taxas de abandono e violência promovidos pelos homens, que deveriam ser unicamente responsáveis por suas decisões, e não guardar refúgio em Adão, que poderia, em poder de suas faculdades mentais saudáveis, haver recusado o fruto proibido, não importando o que Eva viesse a fazer ou o quanto estivesse a insistir.
Para concluir, sem, no entanto, pretender encerrar o tema em tãos poucas páginas, o pensamento de Gary Becker continua relevante para entender em que medida o fenômeno das esposas tradicionais e todo o mercado de mulheres cristãs dedicadas a ensinarem outras mulheres a serem belas, recatadas e do lar, ressurge como uma “escolha racional” para algumas mulheres. Ele fornece uma base econômica para o argumento de que a divisão tradicional do trabalho no casamento pode ser eficiente sem, no entanto, considerar, além dos tópicos já citados, os prejuízos para mulheres que dedicam uma vida ao lar e, na situação de um divórcio (principalmente quando envelhecem), são relegadas ao ostracismo, muitas vezes, não recebendo apoio ou ressarcimento por parte do (ex) marido que, na divisão de tarefas, segue resguardado e preservado pelo capital gerado no trabalho remunerado.
Deixo, portanto, mais uma semente para nova pesquisa, que possa conjugar o a divisão de tarefas na família, o etarismo, as taxas de divórcio e as condições das mulheres do lar após o encerramento do acordo conjugal, a fim de verificar (ou de sugerir) a pertinência do modelo de Becker para um futuro de dignidade e justiça àquelas que tanto se empenharam (e investiram) em ser uma esposa troféu, descartadas por não poderem controlar aquilo que se lhe escapa entre os dedos: o tempo.
Por fim, uma curiosidade para quem estiver com o ânimo científico em dia. Existe mais um marcador em comum com os oito perfis pesquisados, totalizando 11 mulheres cristãs.
Não por acaso, são todas brancas.
“E não seria eu, uma mulher?” perguntaria Bell Hooks (2019).
Estaria esse mercado disponível para a mulher negra?
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[1] https://br.tinderpressroom.com/about
[2] https://www.parperfeito.com.br/help/aboutus.aspx
[3] https://roast.dating/pt/blog/estatisticas-tinder
[4] A Teoria Queer é um campo interdisciplinar dos estudos de gênero e sexualidade que desafia as normas e categorias fixas de identidade, como “homem”, “mulher”, “heterossexual” e “homossexual”. Seu objetivo central é questionar as construções sociais que naturalizam essas categorias e examinar como elas são mantidas pelo discurso cultural e político. A teoria queer critica a ideia de que a identidade de gênero e a orientação sexual são fixas ou determinadas biologicamente. Em vez disso, argumenta que essas categorias são construções sociais e performativas, ou seja, são moldadas por práticas culturais e discursos de poder (Butler, 1990).

Ana Tomazelli é Doutoranda em Ciência da Religião pela PUC-SP, Psicanalista, CHRO e Conselheira de Empresas com foco em ESG. Linkedin TopVoice, TedxSpeaker e Executiva em Recursos Humanos por mais de 25 anos, liderou reestruturações de RH dentro e fora do país. Com passagens pelas startups Scooto e B2Mamy, além de empresas tradicionais e consolidadas como UHG-Amil, Solera Holdings, KPMG e DASA (Diagnósticos da América S/A), Ana também é fundadora do Ipefem – Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino, uma ONG de educação e inteligência em saúde mental baseada em dados para homens e mulheres com foco em masculinidades. Co-fundadora também do Ipecre – Instituto de Pesquisa & Estudos em Ciência da Religião, uma ONG que se dedica a aprofundar o debate religioso por meio de dados, com a intenção de contribuir para a garantia de direitos, mediando conflitos e revisitando a noção de estado laico com políticas baseadas em religião, a fim de contribuir para a promoção da paz mundial.
Ana também é pós-graduada em Recursos Humanos pela FIA-USP e em Negócios pelo IBMEC-RJ. Formada em Jornalismo e Roteiro Audiovisual pela Laureate – Anhembi Morumbi, Ana também desenvolve um trabalho relevante nas redes sociais, ocupando o espaço digital para promoção de diálogo e intervenções sociais.

Ana Tomazelli é Doutoranda em Ciência da Religião pela PUC-SP, Psicanalista, CHRO e Conselheira de Empresas com foco em ESG. Linkedin TopVoice, TedxSpeaker e Executiva em Recursos Humanos por mais de 25 anos, liderou reestruturações de RH dentro e fora do país. Com passagens pelas startups Scooto e B2Mamy, além de empresas tradicionais e consolidadas como UHG-Amil, Solera Holdings, KPMG e DASA (Diagnósticos da América S/A), Ana também é fundadora do Ipefem – Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino, uma ONG de educação e inteligência em saúde mental baseada em dados para homens e mulheres com foco em masculinidades. Co-fundadora também do Ipecre – Instituto de Pesquisa & Estudos em Ciência da Religião, uma ONG que se dedica a aprofundar o debate religioso por meio de dados, com a intenção de contribuir para a garantia de direitos, mediando conflitos e revisitando a noção de estado laico com políticas baseadas em religião, a fim de contribuir para a promoção da paz mundial.
Ana também é pós-graduada em Recursos Humanos pela FIA-USP e em Negócios pelo IBMEC-RJ. Formada em Jornalismo e Roteiro Audiovisual pela Laureate – Anhembi Morumbi, Ana também desenvolve um trabalho relevante nas redes sociais, ocupando o espaço digital para promoção de diálogo e intervenções sociais.