Por Ana Tomazelli:
“Levanta-se de madrugada para preparar a refeição
e planeja as tarefas do dia para suas servas.”
Provérbios, 31:15[1]
“Este livro será seu companheiro constante por ser o único guia verdadeiro e confiável para um estilo de vida funcional.”[2]
Stormie Omartian em A Bíblia da Mulher que Ora
“O pai é o provedor e protetor da família. A mãe é a cuidadora e a nutridora dos filhos.”
Proclamação sobre a Família, documento da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, também conhecida como Mórmon[3]
Era uma vez, em um lindo campo sereno com borboletas coloridas, uma menina que sonhava em ser bailarina. Com suas pernas longas, seu corpo esguio, seus longos cabelos dourados pelo sol e sua pele alva como o amanhecer, ela flanava pelas flores ao som de passarinhos que nunca se cansavam de adoçar o tempo para vê-la passar, vestida do frescor da juventude, com seus olhos azuis a carregar o infinito do céu em si. Junto a seus oito irmãos, viviam uma vida confortável, com um pai a trabalhar duro na floricultura da família, enquanto a mãe, muito dedicada aos nove filhos, estava com a cozinha sempre a funcionar e, seu sorriso, nunca a se apagar.
A menina não andava e nem corria: do berço, parecia já ter se apoiado nas pontas dos pés, como se eles sempre tivessem sido a carruagem certa a saber de seu destino. Não perguntavam para onde ir, mas, também, não duvidavam de onde poderiam chegar. E, assim, a garotinha, criada em oração testemunha do que sua mãe e sua avó foram, foi crescendo e se esforçando para manter os calcanhares no chão. Doía, mas era o certo. Como entrar na igreja a rodopiar sobre os poucos dedos se apoiando frágeis, tornando-se o centro das atenções das pessoas e, pior, colocando-se a si mesma como o seu principal querer? Como voar, quando todas as meninas como ela estavam fincadas no chão feito raízes que só se sabem poder dar frutos do ventre – e não dos pés?
Dividida entre o honrar e o sucumbir, a moça, já grande para as coisas de meninas-pequenas, mas pequena para as coisas de mulheres-grandes, ousa fugir para longe, onde não mais será vista. Passa por vales escuros, com grandes sombras ruidosas; desprende-se de galhos que arranham suas pernas e enfrenta ventos que tentam levá-la de volta, mas não sabem que seus pés também andam pelos ares a bailar. Cansada, com sede e com fome, ela chega a uma estalagem, onde ouve conversas ao fundo, um burburinho embalado pelo som que faz seu coração parar e acelerar ao mesmo tempo. “Como é possível?”, se pergunta. Espreita pelas frestas e, lá, está o espelho: grande, reluzente, com sua barra de ferro em horizontal apoio, repleto de mini-espelhos de si. Jovens esguias, altas, alvas, todas a obedecer não a uma voz grave, mas a um ritmo doce e melódico – a melodia mágica de toda liberdade divina.
Não pôde conter um suspiro, uma lágrima, um grunhido agudo excitado, um espasmo do corpo que sabe ter chegado a algum lugar em que goza da bênção de ser bem-vindo, não porque possui uma função posterior de gerar outro corpo, mas, simplesmente, por ser ele… ele mesmo em si. Somente ele, leve o suficiente para não precisar de calcanhares no chão o tempo inteiro, podendo escolher a que tempo se levantar e partir, se levantar e fluir, se levantar e fugir. Entrou para o grupo de meninas, foi muito bem na gramática dos movimentos, porque já nasceu fluente de alfabeto sensorial e desejo, sem quase se lembrar daquilo que deveria ser – mas sem jamais esquecer que era aquela que estava a desertar.
Quando se olhava no espelho, era ela e mais uma a se envergonhar.
Tudo parecia encaminhado para uma vida plena de realizações, mistérios e mágica: o sonho longe, o passo exato, o eulírico a suspirar sob as luzes e os aplausos e o espelho a lhe contar tudo aquilo o que ela poderia ser, a qualquer tempo, em qualquer direção, a toda velocidade, em qualquer profundidade MAS AINDA ASSIM VOCÊ NÃO ESTÁ SENDO TUDO AQUILO QUE DEUS DESEJA PARA VOCÊ. DEUS TEM UM PLANO PARA VOC”shhhhhh não precisam gritar, eu sei, eu sei, eu vou casar, eu vou ter filhos, isso aqui não é a minha vida, eu sei que tudo vai mudar quando eu engravidar” Era o disco que tocava, em looping, dentro da sua cabeça.
Todo.
Santo.
Dia.
Até que, em um recesso para um feriado importante, a moça do espelho conheceu um homem. Um príncipe.
E parecem felizes quase sempre.
Assim nasce a Ballerina Farm.
A história de Hannah Neeleman pode não ter tido os detalhes românticos que desenhei, mas a estrutura está toda aí. Nascida em 1990, pela literatura corrente pode ser classificada como Geração Y ou Millenial – os populares “nativos digitais”. Tem, portanto, 34 anos, oito filhos com seu esposo, herdeiro da JetBlue e vive em uma fazenda, como o próprio codinome leva a supor. Bailarina que estudou na Juilliard School, em Nova York, conheceu o marido no feriado de Thanksgiving – ele, assim como ela, de família mórmon ou da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como você provavelmente também deve conhecer.
Os mórmons disseminam, com diligência, aquela que acreditam ser a verdadeira mensagem de Jesus Cristo, com um estilo de vida americanizado, o que caiu no gosto do brasileiro: nosso país é o terceiro com maior números de adeptos e tem, nos missionários, sua grande potência de conversão, também porque, por aqui, queremos ser americanos em tudo. Como um “produto” e uma abordagem made in USA, literalmente, os mórmons se orgulham de suas origens e acreditam que Jesus também esteve em terras americanas depois da ressurreição. Foi assim que o maior profeta mórmon, Joseph Smith, declarou ter ouvido de anjos em 1820. Esse período, não considerado pelo Cristianismo mais disseminado pelos católicos e evangélicos, teria ficado registrado em placas de ouro, recuperadas posteriormente, dando origem ao Livro de Mórmons que, junto com a Bíblia, apresenta um conjunto de condutas e comportamentos associados aos papéis e responsabilidades para as pessoas, com bastante marcação de gênero, em uma relação dirigida e orientada à procriação e povoamento do mundo.
Isso e o fato de que o aumento da comunidade mórmon sempre se dá a partir dos missionários, fez, da poligamia, uma das fundadoras da base da religião, apoiando-se, justamente, no estilo de vida masculino nômade, autorizando-o a ter várias esposas, o que desagradou (e muito) os protestantes históricos da época, fazendo, da monogamia, o grande novo pilar sustentador da família tradicional americana.
Isso te lembra algo?
A família se torna o centro nervoso, em todos os sentidos, da vivência, sendo os casais incentivados a aumentarem a prole e terem muitos – MUITOS – filhos. Outro ponto interessante, ainda mais próximo dos protestantes históricos: os mórmons trabalham bastante e poderiam, facilmente, ser os personagens principais de Max Weber em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, com um patrimônio de fazer inveja a muita empresa rica por aí.
Mas não pense que essa é uma história triste de um sonho de menina interrompido.
Mas, também, não pense que não é.
Não tem como saber.
Após o casamento, Hannah viveu alguns anos – veja só – no Brasil, antes de voltar a viver em uma fazenda, justo em Utah, reduto fundador dos mórmons e, não por acaso, populado majoritariamente por eles. O que poderia ser mais uma história dentre milhares, destinada aos álbuns de fotografia e às oralidades que vão se deformando conforme o desinteresse das gerações seguintes se impõem, na verdade, tem se tornado um fenômeno que já ganhou até nome: Tradwives, uma contração de “tradicional” (em inglês) e “wives” (esposas), também atendendo pelo singular Tradwife, o que, em uma tradução análoga livre vai ser entendida como a esposa que resgata o que chamam de valores tradicionais femininos, a partir das orientações gentrificadas contidas – originalmente – na bíblia.
Portanto, não se trata de um fenômeno localizado desta religião especificamente, mas, sim, de um movimento que bebe do cristianismo e, portanto, engloba católicos, mórmons, protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais e grupos evangélicos conservadores em geral, podendo encontrar (ou produzir) eco em outras denominações que venham a ter intersecções no constructo social que vai determinar, do ponto de vista de responsabilidade bíblica, qual é o papel de cada um dos dois gêneros no espectro binário cis – o famoso eixo homem-mulher.
Chamo de fenômeno com muita segurança porque, em tempos digitais, o território de existência das tradwives como uma persona é on-line e a noção de “volume” vem sendo ressignificada ao longo dos anos. O perfil de Hannah, @ballerinafarm, em 01 de setembro de 2024, contabilizava exatos 10 milhões de seguidores e isso não é pouca coisa. Somente para te ofertar uma ordem de grandeza, a Anitta, cantora global, empresária, ganhadora de VMA, primeiro lugar no Spotify por semanas, com documentário na Netflix, já fez feat com Madonna, Black Eyed Peas, Maluma, lança música nova toda semana como a Chilli Beans produz modelo novo de óculos, enfim: a Anitta, nessa mesma data, estava com 64,4 milhões de seguidores.
Ou seja.
Uma esposa tradicional do interior dos Estados Unidos, sem chegar sequer perto da exposição da nossa made in Honório, já entrou na casa dos dois dígitos milionários algorítmicos, o que, por si só, é um sintoma social que deveríamos estar acompanhando, algo que venho fazendo com atenção há um par de anos. E, se você ainda acha que não é para tanto, acompanhe essa crescente: no Instagram, o primeiro post de Hannah foi em 07 de dezembro de 2015. Eram dois de seus filhos, bem pequenos, em um carrinho como de supermercado, mas em uma loja de departamentos, supostamente com o vovô (mas só dá para ver as crianças). Com modestos 1.651 likes e 62 comentários, quase dez anos atrás, isso já era digno de curiosidade. Corta para 2024 e seu mais recente post, que já não era uma foto, mas um vídeo postado em 01 de setembro, estava com 121.445 likes e 612 comentários. Até eu, que sou de humanas, sei que isso é coisa à beça. Era um vídeo do concurso em que ela ganhou o MrsAmerica mostrando os bastidores do evento e da preparação – mas não só isso. O vídeo é recheado de família, fazenda, bichos, comida, ou seja, tudo aquilo o que ela prioriza como narrativa de uma vida feliz, plena e dedicada a Deus.
No entanto, o Instagram já está ficando meio ultrapassado e é claro que a @ballerinafarm também está no TikTok, uma plataforma que só reproduz vídeos e nada de fotos por ali, apenas a de perfil – na qual, aliás, ela não está sozinha, mas com o esposo e seus, agora, oito filhos. Só no TikTok ela tinha 9,7 millhões de seguidores em 01 de setembro de 2024 e, como a rede oferece mais indicadores visíveis ao público em geral, consigo te dizer que, nessa data, a Hannah acumulava um total de 154,9 milhões de likes, sendo o seu primeiro vídeo em 29 de agosto de 2021, apenas três anos antes da escrita deste capítulo (o TikTok é de 2016). No vídeo, ela e o esposo dançam uma coreografia típica da plataforma, em roupas “cowboy”; não dura nem 15 segundos (13, pra ser mais exata) e contabiliza 1,1 milhões de visualizações, além de 25,2 mil likes, 275 comentários, 711 salvamentos e 119 encaminhamentos, sendo estas duas últimas métricas extremamente relevantes para que o algoritmo aumente o alcance para outras pessoas. Afinal, o que é que a gente guarda ou manda para alguém? Se não é algo do qual a gente gosta, certamente é algo que capturou a nossa atenção o suficiente para ocupar o espaço do nosso armazenamento, o espaço do nosso tempo e o espaço na caixa de entrada de outra pessoa – capturando a atenção dela e assim por diante, no que costumamos chamar, literalmente, de “viralização”, esse processo contagioso que vai de uma pessoa para outra de forma exponencial e descontrolada. A economia da atenção, não por acaso, está explodindo como um campo de pesquisa imenso e muito, mas MUITO necessário.
Agora, veja isso: o mais recente vídeo postado, em 01 de setembro de 2024, exatamente o mesmo postado no Instagram, conta com 1,4 milhões de visualizações, além de 124,8 mil likes (pouco mais de três mil em relação ao Instagram), 1.029 comentários (quase o dobro do Instagram), 2.411 salvamentos (mais que o triplo do primeiro vídeo no próprio TikTok) e 1.043 encaminhamentos (quase DEZ VEZES MAIS que o primeiro vídeo, três anos atrás).
O crescimento é indiscutível e tangibiliza, em métrica capital, o fenômeno ao qual me refiro e que, como quase tudo hoje em dia, da internet à política, passando pelos modelos de relacionamentos amorosos, o assédio no mercado do trabalho – quase tudo[4] possui uma fonte conceitual religiosa presente nas estruturas que fundaram a cultura do ocidente, a lastrear nossos vieses inconscientes acerca daquilo que consumimos porque também o almejamos em parte de nós.
Até porque, acompanha esse fio: Hannah é uma mulher cisgênero, branca, loira, magra, alta, com estonteantes olhos azuis, cabelos longos e curvas torneadas; rosto fino, sem deficiência física, casada com um herdeiro e empresário milionário. Suas fotos dão conta de uma família numerosa, feliz, com filhos igualmente lindos feito ela para o padrão ocidental from Grécia, ativos, integrados à natureza, aparentando boa educação e convivência harmoniosa no seio familiar que vai, inclusive (e principalmente) esteticamente, rejeitar o urbano, o coletivo e tantos outros atributos que, sob a ótica conservadora, estão destruindo a família, a feminilidade e a masculinidade – é por isso que estamos do jeito que estamos, segundo eles. Porque, em algum momento da História, saímos desse lugar conservador, como Humanidade mesmo.
Em tese, então, Hannah é uma protagonista de Tolstoi; a Vênus de Alexandre de Antioquia, a musa de Botticelli, a personificação estética-romantizada de Madame Bovary às princesas da Disney da década de 80, o ideal de beleza com sucesso social heteronormativo-religioso que segue, firme e forte, no imaginário da sociedade europeia e seus colonizados em eixo americano. No caso, nós. Mas, para também seguir sendo objeto de desejo para grande parte da mulher ocidental, ela também segue com uma fatia, ainda que pequena, de vida “profissional”, compondo esse mosaico que não declara, explicitamente, ser, ele mesmo, o produto.
Os vídeos com melhor performance no TikTok de Hannah, no entanto, não são com suas conquistas profissionais ou pessoais no sentido de carreira ou estética: com picos de 142,3 milhões de visualizações, eles mostram uma Hannah Neeleman sem maquiagem, com cabelos geralmente soltos (aparentando embaraçados), quase sempre com uma criança por perto (inclusive um bebê pequeno dormindo em um canguru ou sling, muito próximo de uma panela fervendo ou carnes fritando em óleo quente), roupas muito simples, cozinhando strogonoff, lasanha, fazendo sua própria manteiga ou preparando, sozinha, uma refeição ainda mais especial para o aniversário de casamento.
Das servas, nem sinal.
Inclusive, ela e o marido se orgulham em dizer que ela faz tudo sozinha e que, muitas vezes, não consegue levantar da cama de tanta exaustão, um grande indicador da grande mulher que ela é (segundo eles). Este capítulo poderia enveredar pelo caminho de investigação mais voltado aos questionamentos em torno da legitimidade dessa narrativa, o que seria também fascinante, porém impossível, em essência, vir a termo: afinal, só quem vive é quem sabe o que vai em si. Sinto, portanto, mais apreço pelo que posso elaborar, psicanaliticamente, a partir dos elementos presentes neste algo orgânico, ainda em movimento, e que pode ser lido à luz (e às sombras) das psicoses.
Encenação ou não, poderíamos supor um caminho: sendo Hannah essa criança que cresce com o sonho de ser bailarina (e isso é verdade), se forma em uma das escolas mais renomadas do mundo em um dos maiores centros urbanos do mundo, senão o maior (e isso também é verdade), mas é feita de um barro que cresceu em família religiosa conservadora (só vejo verdades), tudo aponta para uma identidade ainda muito dividida (em torno dos 20 anos) entre decidir seguir uma vida como artista pelo mundo, abdicando de priorizar os cuidados domésticos em relação a família e filhos – um algo desconhecido, além de inusitado sob o aspecto geracional e, pior, condenável do ponto de vista religioso – ou dedicar-se a um masculino como prioridade, na intenção de formar uma família numerosa e viver de forma estrita, seguindo as diretrizes bíblicas acerca do que se espera de uma mulher.
Pelo que podemos acompanhar por suas redes sociais, Hannah optou pela segunda opção e não nos cabe, nem a ninguém, qualquer julgamento de valor a esse respeito. Inclusive, o feminismo está aí, justamente, para garantir a qualquer mulher ser o que quiser, inclusive dona de casa, para usar um termo mais comumente conhecido para descrever as mulheres que têm, no trabalho doméstico não remunerado, sua principal ocupação cotidiana. É possível pensar em grandes tintas de ruptura no que tange ao sonho, ao cárcere do impulso que levaria alguém com pés de ventania, de repente, perceber-se raiz imóvel, calcanhares no chão, num afrouxamento das fronteiras entre o ego e o id, a partir do enfraquecimento das fronteiras nos mecanismos de defesa, levando o sujeito para “fora” da realidade – constituindo uma dificuldade de integração desse ego, diante de conteúdos perturbadores que precisam ser, minimamente, reorganizados como uma própria estratégia de sobrevivência.
Na impossibilidade de mediar aquilo que pulsa visceral do id diante das exigências do superego, com suas barras de ferro verticais que não mais apoiam meninas que dançam, mas que limitam mulheres que se prendem, as regras sociais empilham demandas que parecem impossíveis de serem compatibilizadas sem o recurso da fuga dissociativa. Nesse sentido, seria possível fazer a leitura analítica de que, para não se ater apenas à realidade da vida de esposa e mãe, circunscrita a um território físico tanto mais alijado daquele que um dia lhe foi palco; mas, também, para não estar exposta e vulnerável a um mundo em que cunhamos termos como “heteropessimismo” e ainda somos mal vistas quando não casamos; para que não sejamos, nós, as decepções de nossos pais e, portanto, traidoras do quinto mandamento que nos manda honrá-los; para que não carreguemos a culpa de não cumprir os planos que Deus tem para nós; para que não corramos o risco de nos arrepender, velhas, sem companheiro e sem filhos e netos como se nunca tivéssemos sido dignas de amor; para que essas e tantas outras coisas não consumam o nosso ser envenenado por também se saber pagão, nós fugimos.
Fugimos para longe do local habitual e adotamos uma nova identidade.
Em tempos atuais, fugimos para o território digital e não seria um delírio dizer que redes como o Instagram e o TikTok são como grandes espelhos, para avançarmos no conceito lacaniano como um recurso que intenciona integrar o self. A percepção do próprio corpo, mas, principalmente, da imagem de si, vai ser fundamental para que se reconheça um algo de identidade: no estádio do espelho, ao se ver, a criança começa a construir uma noção coesa de si mesma, nessa representação mais semiótica de um todo que é entendido (justamente) como um todo pela primeira vez e assim o segue conforme cresce. A sensação de unidade vai contrastar com a experiência de fragmentação e de descontinuidade que podem ocorrer em estágios anteriores do desenvolvimento, sendo crucial para propiciar uma identificação do ego com a imagem refletida, com base no que vai se perceber e narrar para si mesma a partir dessa imagem. Afinal, o ego não vai ser uma função interna apenas, mas será construído a partir de como se vê de fora – inclusive a percepção alheia que versa sobre a criança. Contudo, ocorre, também, o processo de alienação, quando se experimenta um senso de distância e separação em relação a essa imagem, constituindo algo distinto e outro, que não a criança mesma.
“Como se perdoa a mulher que abandona a ‘natureza’ do cuidar?”
A bailarina se pergunta, diante do espelho.
“Espelho, espelho meu: seria a tradição mais bonita do que eu?”
Ser uma Tradwife, como nova identidade, parece se traduzir em um suposto mecanismo garantidor de seguranças sociais baseadas no futuro, que promete salvar e redimir toda aquela que se sacrificar em nome do divino. No entanto, a beleza de ser vento é essa: nenhuma barra de ferro, de pé ou deitada, aprisiona.
A nova identidade pode ser o avesso de dentro.
Pareço o que vivo, mas não é o que eu sou.
É o que eu capitalizo a partir do que escolho ser, para que o cárcere ocorra da melhor forma.
Me olho no espelho chamado algoritmo e me vejo bonita, famosa, admirada, aplaudida e desejada – tudo aquilo que eu seria nos espelhos de ensaio e nos camarins, mundo afora.
Integro a mulher imoral e a mulher virtuosa.
No presente sensorial analógico, sou a mãe e a esposa que irão envelhecer em aldeia, livres de arrependimento e culpa ancestral.
Mas é no território fora do espaço-tempo que sou a bailarina a rodar o mundo, plantando a semente do eterno em mim.
A salvação – e a perdição – estão no espelho desse telefone, onde me vejo, todos os dias.
Toca uma melodia doce,
estou quase sempre sorrindo,
Mas não há como saber se sou feliz para sempre.
“Pois os lábios da mulher imoral são doces como mel,
E sua boca é mais suave que azeite.”
Provérbios, 5:3[5]
[1] Bíblia : Versão bíblica Nova Versão Transformadora (NVT) em A Bíblia da Mulher que Ora – OMARTIAN, Stormie (2006) – Página 845;
[2] A Bíblia da Mulher que Ora em sua introdução explicativa da própria autora Stormie Omartian, em capítulo intitulado “A Bíblia da mulher que ora é para você”.
[3] Essa frase pode ser encontrada no documento original da Proclamação sobre a Família, que foi apresentado pela Primeira Presidência da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 23 de setembro de 1995.
[4] Só não vou afirmar que tudo passa por essa fonte porque, senão, isso precisaria ser um trabalho de décadas para cunhar uma verdade universal
[5] Bíblia : Versão bíblica Nova Versão Transformadora (NVT) em A Bíblia da Mulher que Ora – OMARTIAN, Stormie (2006) – Página 806.
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Ana Tomazelli é Doutoranda em Ciência da Religião pela PUC-SP, Psicanalista, CHRO e Conselheira de Empresas com foco em ESG. Linkedin TopVoice, TedxSpeaker e Executiva em Recursos Humanos por mais de 25 anos, liderou reestruturações de RH dentro e fora do país. Com passagens pelas startups Scooto e B2Mamy, além de empresas tradicionais e consolidadas como UHG-Amil, Solera Holdings, KPMG e DASA (Diagnósticos da América S/A), Ana também é fundadora do Ipefem – Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino, uma ONG de educação e inteligência em saúde mental baseada em dados para homens e mulheres com foco em masculinidades. Co-fundadora também do Ipecre – Instituto de Pesquisa & Estudos em Ciência da Religião, uma ONG que se dedica a aprofundar o debate religioso por meio de dados, com a intenção de contribuir para a garantia de direitos, mediando conflitos e revisitando a noção de estado laico com políticas baseadas em religião, a fim de contribuir para a promoção da paz mundial.
Ana também é pós-graduada em Recursos Humanos pela FIA-USP e em Negócios pelo IBMEC-RJ. Formada em Jornalismo e Roteiro Audiovisual pela Laureate – Anhembi Morumbi, Ana também desenvolve um trabalho relevante nas redes sociais, ocupando o espaço digital para promoção de diálogo e intervenções sociais.

Ana Tomazelli é Doutoranda em Ciência da Religião pela PUC-SP, Psicanalista, CHRO e Conselheira de Empresas com foco em ESG. Linkedin TopVoice, TedxSpeaker e Executiva em Recursos Humanos por mais de 25 anos, liderou reestruturações de RH dentro e fora do país. Com passagens pelas startups Scooto e B2Mamy, além de empresas tradicionais e consolidadas como UHG-Amil, Solera Holdings, KPMG e DASA (Diagnósticos da América S/A), Ana também é fundadora do Ipefem – Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino, uma ONG de educação e inteligência em saúde mental baseada em dados para homens e mulheres com foco em masculinidades. Co-fundadora também do Ipecre – Instituto de Pesquisa & Estudos em Ciência da Religião, uma ONG que se dedica a aprofundar o debate religioso por meio de dados, com a intenção de contribuir para a garantia de direitos, mediando conflitos e revisitando a noção de estado laico com políticas baseadas em religião, a fim de contribuir para a promoção da paz mundial.
Ana também é pós-graduada em Recursos Humanos pela FIA-USP e em Negócios pelo IBMEC-RJ. Formada em Jornalismo e Roteiro Audiovisual pela Laureate – Anhembi Morumbi, Ana também desenvolve um trabalho relevante nas redes sociais, ocupando o espaço digital para promoção de diálogo e intervenções sociais.